8 de novembro de 2014

Os grandes

Quando encontro alguém que ainda não sabe o que estudo, é inevitável perguntarem. E digo-vos, aquele sorriso de expectativa e aqueles olhinhos brilhantes que sempre fazem, passam directamente a um sorriso amarelo e a olhos baços assim que me ouvem dizer Psicologia. Esperam sempre um Direito ou uma Medicina, talvez até uma Engenharia, mas não tanto, e depois é tão notória a desilusão que, qualquer dia, peço desculpa pelo incómodo. "Ai filha, mas isso vais ficar desempregada", pois, pois sim. Posso até ficar. Mas parada? Jamais.

14 comentários:

maria umbelina disse...

Isso acho que se pode aplicar a quase todas as licenciaturas, não só à psicologia! Afinal a maior parte dos recém licenciados estão desempregados ou emigrados. É muita oferta para pouca procura por parte dos empregadores. Só espero que sejas uma boa psicóloga e não como uma que eu conheço :D

Panda disse...

Espero ser, também :)

Tulipa Negra disse...

Deviam gostar mais que dissesses que estavas em casa a coçar a micose.

ernesto disse...

E neste momento que curso é que te garante um emprego? Só se for um de stripper, porque de resto... é tudo tão arriscado que vale mesmo mais fazer o que se gosta!

Panda disse...

Tulipa, qualquer dia pergunto se me querem pagar as propinas, tanta é a preocupação.

Ernesto, ahahahahah tu e a stripper. Mas é exactamente isso, está mal para todos e se eu vou ficar desempregada na minha área, pelo menos enquanto estudo ando feliz.

Vanessa disse...

A preocupação alheia sobre o meu percurso académico também me deixaria aborrecida, porque está mesmo a pedir uma resposta ao género none-of-your-business, mas se há algo que me aborrece ainda mais é dizerem que isto está mau para todos. Não está. E terem esse pensamento de que "bem, posso ir ao fundo, mas ao menos não vou ser a única" é só uma tentativa de evitarem de lidar com a depressão/desilusão sozinhos, mas no fim do curso, para além de isso não se verificar, ainda vão chegar à conclusão que era uma expectativa inútil, porque quando se virem sem emprego não vão sentir-se reconfortados sabendo que há mais alguém na mesma situação ou não. A miséria adora companhia, sim, mas se estamos a falar do nosso sustento, da nossa qualidade de vida... calma lá com os clichés.

Não há cursos que garantam 100% de empregabilidade, isso não, mas há muitos que continuam a proporcionar uma elevada probabilidade, e não podemos meter esses cursos no mesmo saco que os outros porque não seria sensato nem responsável. Na altura de decidir sobre o nosso futuro acho que temos que pensar um bocadinho mais à frente, e não deixarmos influenciar-nos pela perspectiva estreita de que "está tudo mau, é irrelevante escolher" mas antes pensar "bem, mas estando tudo mau, o que é que eu posso fazer para melhorar um bocadinho que seja as minhas circunstâncias?"

Panda disse...

Mas aqui não se trata sequer disso. Eu, pelo menos, não fico mais feliz por saber que há mais gente numa situação precária. E também não meto os cursos todos no mesmo saco. Mas, efectivamente, e isto são estatísticas, não minto, a empregabilidade desceu em todos os cursos, nuns mais que outros, mas não é ao acaso que as pessoas lançam para o ar que "está mal para todos". Talvez seja melhor dizer antes que "já esteve melhor para todos". Neste momento, poucos têm uma situação ideal à sua espera quando terminam um curso. Quando digo o "está mal para todos" limito-me a dar resposta, não por achar que se os outros estão ao menos caímos todos na miséria (por amor de Deus, essa nem me ocorreu), mas sim para calar muitas bocas para as quais só Direito e Medicina é que são cursos de gente. E isso sim é do que trata este post.

Panda disse...

E Vanessa, pegando na última parte da tua resposta, tens sim toda a razão, aliás, quem pensar que é irrelevante está muito, mas muito enganado. Eu escolhi Psicologia porque é um amor que eu tenho. E, se voltasse atrás, não escolheria outra coisa por me dizerem que "tem mais saída". De que me adianta "ter mais saída" se depois não estarei feliz? E é aí que penso "porra, da maneira que isto está, pelo menos vou estudar o que realmente quero".

Vanessa disse...

A empregabilidade desceu, sim, mas ainda assim há cursos que continuam a ser boas apostas, havendo áreas em que essa descida é quase inexpressiva - refiro-me a cursos ligados às tecnologias, e a alguns da área da Saúde. O problema de se dizer que isto está mau para todos é que a malta que está a sair do secundário e a ponderar entrar na faculdade, ao reflectir sobre o curso a seguir não vai preocupar-se muito e tenderá a escolher aquilo para o qual tem alguma inclinação (não necessariamente vocação, que é uma coisa rara e por vezes difícil de descobrir), em vez de parar e olhar para as reais necessidades do mercado, ver o que está em expansão, ver a que é que se pode adaptar. "Sociologia? Parece-me bem, gosto de pessoas e teorias, acho que tem tudo a ver comigo" - ora, isto não é uma forma nada inteligente de se decidir sobre um curso nas actuais circunstâncias.

Um argumento como resposta ao "mas isso não tem saída" que faz mais sentido é dizeres que daqui a 4 ou 5 anos o cenário de crise e de retracção pode já não se verificar, as ciências sociais podem voltar a ser uma boa aposta. Mas responder com "isto está mau para todos" não é válido porque mesmo em cenário de crise há opções que te continuam a favorecer incomparavelmente mais do que outras, que te oferecem uma vantagem incomparavelmente superior.

Panda disse...

Discordo da opção de ir para uma área só porque, neste momento, é o que o mercado de trabalho mais precisa. Assim, o argumento de que daqui a uns anos pode estar melhor nas áreas em que agora está pior, deixa de fazer qualquer sentido. Por isso é que sou apologista de escolherem o que acham que vão saber fazer melhor. Mas com cabeça. Eu não escolhia engenharia, por exemplo, porque, sinceramente, desconfio de que demorava 10 anos para acabar. E, no entanto, tem muita mais saída do que o meu curso. Por isso é que acho uma estupidez escolher "de acordo com os tempos."

Vanessa disse...

A esperança de que as coisas talvez melhorem é mesmo só isso: uma esperança. Para quem prefere ter à mão algo mais palpável e fiável acerca do que o futuro lhe pode trazer no momento de se decidir, então reconhecerá que pode fazer boas opções, independentemente de como as coisas se revelem daqui a uns anos. O gostar e o ver-se a fazer não são critérios assim tão decisivos, porque muitas vezes a pessoa só aprende a gostar ou descobre que gosta com o passar do tempo, com o passar do curso. Eu conheço quem tenha ido para Medicina não porque gostasse particularmente mas porque queria alguma garantia de uma boa vida, e deu-se o caso de agora estar a terminar e gostar da profissão, ver-se efectivamente como médico. Acho que este pragmatismo é essencial.

Se tens a forte convicção de que não te vês a exercer mais nada a não ser Psicologia, então é claro que só podes estar no bom caminho. Mas isto não é o caso geral. As pessoas não sentem a vocação, sabem apenas que se sentem inclinadas para algo, desconhecendo que poderiam adaptar-se num curso que oferecesse melhores saídas e que também lhes poderia servir. E como só ouvem dizer que isto está tudo mau e não fazem uma análise do que realmente não está assim tão mau, acabam por fazer escolhas insensatas, e depois estão na linha da frente das manifestações porque tiraram o curso de Arqueologia e não encontram emprego. Big surprise!

Panda disse...

Concordo em certa parte com o que dizes, claro. Percebo perfeitamente a opinião que defendes. Lá está, tenho mesmo que falar por mim, eu não me vejo, efectivamente, a fazer mais nada. Medicina não podia, não tinha média, Engenharia ia fazer os meus pais pagarem um curso que eu não ia acabar, Direito não é para mim porque ia dar uma péssima advogada. E uns milhentos outros que não me permitiam trabalhar em Portugal ficaram logo de fora. E pronto, depois tenho outras razões fortes que me fazem querer realmente ser psicóloga. Mas o que aqui referi, principalmente, foi a necessidade mesquinha que muitas pessoas que encontro têm em torcer o nariz quando digo o que estudo, muito principalmente por acreditarem que um psicólogo não faz nada palpável nem que se apresente, e que só um médico ou um advogado é que contribuem em pleno para a sociedade. Quando isso não é, de modo algum, verdade. É até perigoso dizê-lo.

Vanessa disse...

Claro, e é evidente que opiniões dessas (de que só deviam existir médicos e advogados) não merecem respeito, mas depois li-te aqui na caixa de comentários que a resposta a tais considerações é o tal "isto está mau para todos", e é apenas com isso que eu não concordo.

Panda disse...

Não, a minha resposta não é essa, nem chega a ser nenhuma porque fico meia abananada quando me acontece isso. Foi aqui nos comentários a concordar com uma leitora ali em cima. Porque normalmente limito-me a pensar porque razão se há-de atribuir prestígio único a outros cursos e ao meu tantos torcem o nariz. Porque "ah Psicologia, então mas vocês fazem o quê, ouvem as pessoas desabafar e pagam-vos para isso?" e pronto, nessas alturas nem tenho resposta, limito-me a ficar envergonhada por haver pessoas a pôr tanta coisa de lado sem saberem do que falam. E percebo perfeitamente porque não concordaste com o meu "está mal para todos", claro que não é tão linear quanto se pinta.