8 de fevereiro de 2015

A última bolacha do pacote

Nunca, em toda a minha vida, fui a última bolacha do pacote. Na primária, era a menina mimada, a bebézinha e a de bem (ao menos isso!), porque os meus pais me compravam roupa cara, daquela com golinhas redondas e folhos a mais para um só par de meias. Era a magricela, a frágil, a da franjinha e do cabelinho curto, sempre demasiado penteado. Era a dos sapatinhos finórios. No básico, era a que não tinha curvas, a tira-linhas e a miúda das calças foleiras de bombazine a quem a mãe escolhia a roupa. Tinha que andar sempre de cabelo apanhado, sem excepção, senão tinha sermão e missa cantada. Claro que tirava sempre o meu elástico, assim que me apanhava na escola, na esperança de vir a ser como as gajas boas lá do sítio. Mas nunca era. Era sempre a betinha, a pouco engraçada, a mimada e a magricela. As minhas amigas eram as populares, à falta de melhor expressão, mas, ainda assim, eu ficava sempre na sombra. Nunca tinha as calças da moda, aquelas horrorosas da pata do elefante (meu Deus!, mas na altura era o que mais queria), nem umas botas de que realmente gostasse. Todos os Invernos era obrigada a usar aquelas, sempre do mesmo estilo: pretas, cano alto e ao jeitinho do sapato ortopédico. Se era gozada? Era, sempre. No secundário, era a croma, a do aparelho, a que levava com a bola no focinho em Educação Física porque fechava os olhos. Era a que nunca podia ir a pé para casa, nem sair para lanchar com os colegas, nem sequer ir a visitas de estudo (a primeira vez que fui, foi só porque ia aparecer na televisão, num programa da Serenela Andrade). E Deus me livre de pedir para ir à viagem de finalistas! Era sempre a magricela, a pouco divertida, a descoordenada, a desajeitada e a que se engasgava toda quando tinha que apresentar os trabalhos para a turma. Nunca fui a última bolacha do pacote, nem mesmo agora, apesar de me ter tornado bem diferente daquilo que sempre fui. Continuo desajeitada, croma e descoordenada, é verdade que sim, mas dou a volta (às vezes lá corre mal), talvez porque já não me importo como me importava naquela altura e, também, porque me permito um pouco mais. Nunca me queixava de nada, mas sabia que nunca seria uma miúda feliz enquanto andasse na escola. E, eventualmente, todos aqueles anos em que eu nunca era o suficiente, nem para mim nem para nenhuma outra pessoa, deixaram a sua marquinha. Mas agora que já não ando na escolinha, agora que se passaram 4 anos de Faculdade e que estou nos meus 24 anos (bem sei que ainda tenho muito que aprender), cheguei a uma conclusão: será impossível ser uma miúda feliz, enquanto a minha felicidade também depender de pessoas nas quais não penso antes de ir dormir. Enquanto, na minha cabeça, estiverem todos os "magricela", os "estranha", os "mal vestida" e os "pernas de palito", não conseguirei ser feliz. Preciso de deixar isso para trás. Preciso, não de ser, mas de me sentir a última bolacha do pacote. Isso fará de mim tudo o que eu quiser ser. Basta deixar-me levar e irei lá dar. Mas é fácil escrever!

16 comentários:

Linda Porca disse...

Tu és a última bolacha do pacote, querida.
Leva-se muitos anos a perceber isso. Mas chega-se lá.

Panda disse...

Acho que já sabia disso. Só que, lá está, ainda não cheguei.

Sister V. disse...

Estás no bom caminho, miúda :-)

maria umbelina disse...

Queres mesmo ser a última bolacha do pacote? Olha que essa fica sempre esmigalhada! :p

Agora mais a sério. Todos querem sentir-se importantes, reconhecidos, mas primeiro temos de ser nós a dar-nos valor e não ficarmos dependentes do que os outros acham de nós. Um dia conseguiremos, nem sempre é fácil abafar esses pensamentos, mas depois de o fazermos, torna-se tudo mais fácil :)

O lado B da blogger feliz disse...

Pandinha meu amor, não imaginas como te entendo. Eu era a menina dos vestidos com laçarote na cintura, a menina dos mocassins, quando toda a gente usava ténis. Era a menina que não ia às visitas de estudo porque a mãe não deixava. A primeira que fui, a Fátima, já andava no 8º ou 9º ano.
Depois no ciclo, a coisa agravou-se porque a minha mãe continuou a escolher a minha roupa que era sempre diferente da que estava na moda.Eu bem que lhe dizia que não gostava daquela roupa porém ela ficava escandalizada porque era roupa que me comprava na Cenoura e congéneres e que os outros é que eram os mal vestidos.
Lembro-me de morrer por umas calças de ganga e não ter. E, para piorar as coisas, usava óculos. Logo, era a quatro-olhos.
Isso reflectiu-se na minha forma de estar, passei a isolar-me e só me dava com uma ou duas amigas. O passo seguinte foi começarem-me a chamar de ave rara. Essa mandou-me abaixo. Oh se mandou. Só consegui começar a usar a roupa que queria lá para o 8º/9º ano.
Isto acabou por se transformar num trauma que só passou quando fui para a faculdade.

Mas sabes, há uma coisa deveras curiosa: Hoje, quando encontro os infelizes que me chamavam nomes, constato que são uns infelizes, parolos, que não evoluíram nem foram longe na vida,. Ao passo que eu me formei, já viajei um pouco por todo o mundo, sou uma pessoa muito mas muito mais à frente que eles, que, coitados, continuam ali, na vidinha de sempre. E, se pensar nisso rio-me. A sério que sim. Porque são todos realmente uns grandes merdas. E eu? Eu estou, a todos os níveis, muito, muito acima.

Um grande beijinho <3

Panda disse...

Sister V., obrigada, sista ;)

maria, mas olha que a tua primeira frase acaba por me dar que pensar, sabes?

Lado B, eu só no secundário é que pude ter opinião nas coisas que comprava. Mas o que mais me custava era ser sempre a totó que ficava a ter aulas quando os outros iam Portugal fora. Ainda por cima porque, vai-se a ver, e a história do "nós levamos-te lá" era mentira. Para mim ainda é um bocadinho cedo descobrir se estou muito acima ou não, mas acho que na altura estava, apesar de todas as roupas e os gozos, eu sempre fui uma miúda bem às direitas. E o contrário de mimada, que foi aquilo que tive sempre que ouvir, por causa da minha aparência e de nunca poder ir para lado nenhum. Um beijinho :)

*Nightwish* disse...

Tirando a parte da roupa de marca e com folhos, eu não era muito diferente de ti. Comecei a andar na rua sozinha com 14 anos, porque os meus pais pensavam que nem atravessar uma passadeira eu sabia fazer. Mandavam no que vestida (só no secundário comecei a dar uns bitaites), e nem o meu corte de cabelo podia escolher. Menina de boas famílias usar vestidinhos cor-de-rosa e não roupa preta, muito menos corrente nas calças. Meninas de bem também não ouvem metal. As meninas que fogem à regras devem estar possuídas pelo demo, na certa. Falar para dar opinião!? Nem no wc.
Só quando vim para a academia é que comecei a "mandar", ainda que pouco, na minha vida. E aprender a cozinhar, já agora, porque a minha mãe tinha medo que me magoasse/cortasse/queimasse, mas na eminência de sair de casa, fez questão de me dizer que não ia cozinhar ao fds para eu levar a comida congelada em tupperwares. Eu que me arranjasse, ora essa!
Todas estas limitações fizeram de mim insegura, meia trapalhona e "atadinha". É difícil percebermos que também merecemos ser felizes. Às vezes ainda tenho dúvidas... mas o Moço não me deixa tê-las =)
****

Panda disse...

Olha, também não podia vestir preto, nem pintar as unhas. E já no secundário. Pois, o meu homem também tem um papel muito importante e tenho vindo a melhorar, em parte, graças a ele. Mas isto leva muito tempo. Muito tempo mesmo.

Melvin disse...

Eu a pensar que eras mesmo um Panda, que desgosto saber disto tudo. Falando a sério, a parte da roupa escolhida pela mãe também não gostava assim tanto, mas hoje olho para as fotos e até aprecio o facto de ser um dos mais bem vestidos da turma. Nisto, tiro o chapéu à minha mãe. De resto, nunca me proibiram de nada, visitas de estudo e coisas do género, mas não tive uma adolescência de sonho. Longe disso. Nem a viagem de finalistas tive direito. Esta parte da não-adolescência, reflectiu-se na ida para a faculdade em que nos primeiros tempos foi uma autentica Neverland...só me faltou voar e enfrentar o capitão gancho. :)

Panda disse...

E sou um Panda, olha só o que diz o meu header, trapped in a human body! :P Por acaso, quando vi para a Faculdade, o máximo que quis fazer foi sair e apanhar a minha primeira bebedeira. Mas sempre tudo na paz, como se fizesse aquilo desde sempre. Sempre controlei bem a minha "liberdade". O que não esperava, de todo. Pensava que ia ser pior.

Melvin disse...

Também controlei super bem, nota que a minha neverland, não implicou necessariamente álcool ou outro tipo de drogas. Foi mais aproveitar com os amigos todo o tempo que não tinha passado com eles na adolescência.

Panda disse...

Pois, eu isso já não tive oportunidade, foi com outros amigos, os de Faculdade. Porque os outros, entretanto, têm as vidas deles em sítios diferentes. Portanto, com os amigos de adolescência, infelizmente, não aproveitei nada.

FME disse...

Eu acho que és a última bolacha do pacote com o teu humor brutal :D melhor humor da blogosfera, sem exageros!! Todos temos dessas bagagens.. Eu era a Sapo Cocas, Ana Pipocas, Filipana caganeira... Enfim.. Ainda agora no trabalho apanho com coisas dessas enfim! Uma vida a sofrer :)

Panda disse...

FME, Tu não me digas essas coisas assim, sem avisos prévios, que uma 'ssoa não se aguenta das canetas! :D És uma querida, obrigada, sabe muito bem ler esses elogios. :)

ernesto disse...

Mais uma vez, cheguei tarde ao post (shame on me!) mas apetece-me comentar na mesma. É que nunca nesta vida eu teria pensado que podias não te achar a última bolacha do pacote! Geez, tu és das bloggers mais geniais que eu conheço! Custa crer que alguém te tenha desvalorizado a este ponto.

Se bem que eu também não tenho uma história cor de rosa. Não sei se fazes ideia disto, mas nasci com lábio leporino e sempre fui a gorda, a feia, a anormal. Tinha amigos, sim, mas mesmo assim era gozada a torto e a direito e também vivia na sombra.
Cheguei a um ponto em que me isolei tanto que almoçava na biblioteca, às escondidas, para não ter de me cruzar com ninguém. Isto já com os meus 15, 16 anos.

Hoje ainda não gosto de mim e ainda deprimo imensas vezes por, em tanta gente, me ter calhado a mim na rifa mas, oh hell, a alguém tinha de ser, não é? O problema são as marcas que vão ficando e que influenciam a forma como nos vemos mesmo quando já nem temos nada a ver com a figura que era gozada.

Enfim, um dia percebemos que somos mesmo a última bolacha do pacote :D

Panda disse...

ernesto, assim não pode ser! Assim fico sensível, mulher, tu não me faças uma coisa dessas, que eu tenho uma rep a manter! Não fazia ideia, não senhora. Mas e então? Não consegues fazer tudo o que os outros fazem? As pessoas são muito más e incapacitantes, de certa forma. Sempre tive problemas com isso. Mas agora, I could care less, há outras coisas que valorizo mais do que a eles, com certeza. Que enfiem as opiniões pelo rabinho acima. As pessoas são sempre tão cheias de opiniões, não são? Fuck them.